quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Folha de Papel



Olhando pela janela do meu apartamento arrojado, eu via a realidade atravessar as minhas entranhas como um arpão afiado. A minha mão delicada e as minhas unhas bem pintadas contrastavam com a realidade daquele jovem franzino, que, todos os dias, olhava para o céu, com um lápis e um papel em mãos, sentado nas escadas desgastadas da casa onde morava. Nas noites estreladas, ele ficava do lado de fora por horas a fio. Nas noites de chuva, ele saía, mesmo que sem papel, molhava o corpo coberto por roupas sujas e sentava, por um curto período de tempo, naquele mesmo lugar.

Há uma semana, eu via aquela mesma cena. Desde a primeira vez que resolvi sair do meu casulo. Eu, definitivamente, estava virando uma claustrofóbica por estar dentro dele. Uma metódica insuportável. Eu calçava o meu tênis importado e saía para correr todos os dias. Minha dieta era impecável e o meu corpo, escultural, aos cinqüenta e seis anos de idade. Meus filhos, já formados, vinham me visitar periodicamente. Eu achava que eu vivia bem; estava cuidando do meu corpo, do meu status social, da minha família... mas algo me faltava.

Percebi isso sete dias atrás, no momento em que cheguei de um jantar comemorativo e resolvi olhar pela janela. Para observar o céu, e só. Foi então que uma figura me chamou a atenção: um menino manco andava a passos largos pela rua deserta, e segurava algo entre suas mãos e seu corpo. Chuviscava. Acompanhei a cena de cima, observando-o subir as escadas que o levariam para casa. Antes de entrar, porém, ele parou, olhou para cima e levantou o objeto que levava com ele, como que para mostrar a alguém que não podia ver. Era um papel. Virou-se e, não antes de tirar as sandálias de borracha, finalmente se recolheu.

Voltando das lembranças ao presente, me concentrei novamente na rua em que o menino estava. Fixei o olhar naquele rapaz. Era jovem, devia ter os seus dezesseis anos. Minha curiosidade crescia: um papel. Podia ser qualquer coisa.

Mas o que me impedia de saciar essa curiosidade? Era a rua deserta. Era o escuro. Era o desconhecido. Nunca fui de me arriscar, confesso; mas eu precisava daquilo, por uma noite e só.

Peguei o meu agasalho e as minhas chaves, calcei as sandálias e desci o elevador. Já no portão do prédio, as minhas mãos suavam, e o meu sangue pulsava forte. Olhei em direção à guarita, de onde o porteiro, sereno, me encarava. Pedi para que abrisse o portão, e foi o que ele fez. Puxei o ferro frio e, em um instante, lá eu estava: na rua. Andei o mais rápido que pude em direção àquele garoto. Eu mesma achava que, depois dali, o meu destino seria um hospício; ninguém sai uma hora dessas, no mundo de hoje, para saciar uma curiosidade sobre um desconhecido. É, eu estava louca. Mas não liguei.

Localizei as escadas que eu tanto observara. No topo, estava o rapaz que me fez enlouquecer. Enquanto eu subia, o menino perdeu a concentração no que fazia e me encarou. Ofegante, eu o observei. Não deixei de perceber o olhar curioso que ele me lançava. Curiosidade. Nós éramos parecidos em um aspecto, afinal.

Analisei mais criteriosamente as suas mãos. Segurava o tal papel em uma e um lápis em outra, como sempre. Pensei se este era o mesmo papel que eu vi na primeira noite. Rompi o silêncio.

- Boa noite, rapaz. Sei que não me conhece. Já eu, te conheço há uma semana. Moro aqui por perto, e vi o dia em que você ganhou uma folha de papel. Este pareceu ser um dia particularmente feliz da sua vida. Eu confesso que vim buscar um pouco dessa felicidade.

Sobressaltado, ele levantou.

- A senhora não devia estar aqui. Já tá tarde.

Sob a luz, consegui enxergar alguns rabiscos sob a folha.

- Por favor, me perdoe a indiscrição, meu jovem. Sei que é ridículo, mas... por que um pedaço de papel te faria tão feliz? As pessoas normalmente não se satisfazem com tão pouco.

O jovem olhou para as próprias mãos. Surpreso, olhou de volta para mim.

- Minha senhora, eu não sei o que é indiscrição. Mas quero aprender. Prometi pra minha vó que eu seria gente na vida. Gente que nem esse povo inteligente que eu vejo na televisão quando eu vou pra a casa da minha tia, sabe? É, a minha tia tá feliz com essa televisão. Economizou um tanto de meses aí. Pra ela, isso é muita coisa. Mesmo que pra muita gente, não seja.

Ele pausou por um momento. Olhou para o céu e apontou uma estrela.

- Aquela ali é a minha vó. Ela me deu um lápis antes de morrer. Desde que isso aconteceu, eu procuro um pedaço de papel. Eu achei, e agora copio nele todos os pôsteres que aparecem naquele troço ali.

Segui o seu olhar. Não era um pôster. Não era um troço. Era um outdoor iluminado, bem perto de onde nós estávamos.

Voltei o meu olhar para ele. Emocionada e com um sorriso no rosto, notei que o medo da rua, do escuro ou do desconhecido que eu tinha já não existia mais.

Tamara Saba Schriek, 08/08/2011