Saio andando pela rua; ainda é cedo. De início, o barulho gerado pelo confronto dos meus saltos altos com o asfalto são quase ensurdecedores. Depois de um certo ponto, ao se misturarem aos muitos sons advindos das outras tantas atividades alheias, os meus saltos emudecem. Parecem querer analisar o ambiente junto a mim.Me direciono a um dos poucos bancos desocupados naquela praça que tanto frequento. Ao sentar, observo crianças brincando com os seus balões coloridos, gargalhando alto e em bom tom, senhores de idade de mãos dadas... aulas de ioga.
Só então o meu olhar para em um senhor de idade, maltrapilho, que acena para as famílias que se divertem. É uma figura familiar; sempre por ali. Ele tem os olhos azuis, assim como os meus.
Os peculiares olhos do homem encontram os meus e os fitam por alguns instantes. Ele ajeita os óculos tortos e se levanta com esforço do banco onde estava sentado. Distraída, desvio o meu foco de atenção; rapidamente, este se vê encurralado em um espaço restrito pela minha própria mente.
Os peculiares olhos do homem encontram os meus e os fitam por alguns instantes. Ele ajeita os óculos tortos e se levanta com esforço do banco onde estava sentado. Distraída, desvio o meu foco de atenção; rapidamente, este se vê encurralado em um espaço restrito pela minha própria mente.
A sociedade é intrigante; sempre foi. O limite tênue que separa uma pessoa tida como saudável de um indivíduo psicologicamente "doente" é imprevisível: o gatilho pode ser qualquer coisa.
Guerras. Conflitos. O que faz um indivíduo da raça humana querer matar o outro por prazer? Somos a única raça que mata por esporte. Por gozo. Por diversão.
A humanidade como um todo deveria ser mais do que ganância, do que mentes distorcidas e complexas. Mais do que vazia.
Desperto dos meus devaneios e noto alguém sentado ao meu lado. À minha direita, encontro os mesmos olhos azuis que me fitavam à distância, momentos antes. O mendigo se inclina para frente, calado, enquanto aprecia a minha perplexidade. Depois de alguns segundos, ele quebra o silêncio:
- Mentes?
- O que disse? -, pergunto, ainda desconfiada.
- Mentes? -, ele repete, mostrando a praça.
- Como assim?
- Interprete como quiser.
Ele me olha, divertido. Sorri.
- Veja bem: as palavras podem ser interpretadas de acordo com o que predomina na cabeça de cada um. "Heil Hitler" provocava extrema repulsa em pessoas que sabiam o que ocorria com os oprimidos na Segunda Guerra. Em outros, aquele gesto significava o apoio a uma Alemanha melhor; vencedora.
Ainda com um olhar jocoso, o homem tira os óculos e continua:
- Também observo as pessoas, sabe? As mentes. Se mentem. Se riem. O que fazem. E cheguei a uma só conclusão: elas se perdem. Se perdem porque nunca se acharam! As peças que elas juntam para construir uma personalidade própria são derivadas de experiências vividas, que se moldam de acordo com os conceitos já enraizados em suas próprias cabeças. Elas se somam. E sofrem metamorfose constante. Ah, a senhora já deve estar me achando louco a esta altura... e aí eu te pergunto, moça: quem te garante que o louco aqui sou eu?
Imediatamente, eu abro os olhos. Faço esforço. A camisa-de-força ainda me envolve, e a praça não existe mais. Na verdade, nunca existiu. Menti para a minha consciência. Menti para o homem que tinha os olhos azuis; azuis como os meus.
Texto dedicado a Aristides Pupo. :)
Ainda com um olhar jocoso, o homem tira os óculos e continua:
- Também observo as pessoas, sabe? As mentes. Se mentem. Se riem. O que fazem. E cheguei a uma só conclusão: elas se perdem. Se perdem porque nunca se acharam! As peças que elas juntam para construir uma personalidade própria são derivadas de experiências vividas, que se moldam de acordo com os conceitos já enraizados em suas próprias cabeças. Elas se somam. E sofrem metamorfose constante. Ah, a senhora já deve estar me achando louco a esta altura... e aí eu te pergunto, moça: quem te garante que o louco aqui sou eu?
Imediatamente, eu abro os olhos. Faço esforço. A camisa-de-força ainda me envolve, e a praça não existe mais. Na verdade, nunca existiu. Menti para a minha consciência. Menti para o homem que tinha os olhos azuis; azuis como os meus.
Texto dedicado a Aristides Pupo. :)
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